Dados de remédio anticâncer criado na USP ainda não estão maduros

A fosfoetanolamina, molécula estudada por pesquisadores da USP que tem sido vista como uma espécie de tábua de salvação por pacientes com câncer, de fato mostrou potencial em testes preliminares de laboratório, mas ainda é cedo para achar que ela está pronta para ser testada em humanos.

A avaliação é do farmacêutico Adilson Kleber Ferreira, coautor de seis pesquisas com a substância publicadas em revistas científicas internacionais entre 2011 e 2013.

Os estudos foram feitos em parceria com Gilberto Chierice, hoje professor aposentado do IQSC (Instituto de Química de São Carlos, da USP), que foi o primeiro a avaliar as propriedades da molécula e passou anos a distribuí-la informalmente para pessoas com câncer.

Todas as pesquisas assinadas por Ferreira envolveram apenas testes in vitro, com linhagens de células, ou animais de laboratório (como camundongos) com diferentes tipos de câncer, como tumores de mama e melanomas. Em nenhum momento foram feitas avaliações em pessoas.

Na opinião de Ferreira, que hoje faz pós-doutorado no Instituto de Ciências Biomédicas da USP da capital, seria importante saber mais detalhes sobre como a “fosfo” (como é conhecida) é absorvida pelo organismo, por exemplo, antes de partir para os testes em seres humanos.

Mas ele afirma que os resultados preliminares indicam que o trabalho deve continuar. A Folha apurou que as pesquisas foram suspensas na USP de São Carlos. Leia a entrevista abaixo.

Folha – Como o sr. resumiria os resultados dos seus trabalhos com a fosfoetanolamina?

Adilson Kleber Ferreira – À primeira vista, nos estudos in vitro, ela não parecia uma molécula tão promissora para possíveis tratamentos contra o câncer, já que a dose necessária para obter um efeito significativo contra células de tumores era superior à de medicamentos que já estão disponíveis no mercado há bastante tempo.

Por outro lado, quando nós passamos para testes in vivo [em animais de laboratório, como camundongos], a situação se inverteu —o desempenho da molécula foi superior ao de alguns remédios convencionais.

É possível dizer que ela estimula a apoptose [nome dado ao “suicídio programado” das células] nos modelos experimentais de tumores, por exemplo. De maneira geral, é uma molécula com bom potencial, mas que ainda precisa ser mais estudada.

O químico Gilberto Chierice afirmou algumas vezes que não é fácil combinar a fosfoetanolamina com a quimioterapia convencional, já que o tratamento corrente hoje debilita bastante o sistema de defesa do organismo, enquanto a molécula estudada por ele dependeria da robustez desse sistema para funcionar. Os dados mostram mesmo isso?

Na minha opinião, isso por enquanto é apenas uma hipótese, que ainda precisa ser comprovada.

Pacientes terminais de câncer, por exemplo, já vão estar com seu sistema imunológico comprometido de qualquer maneira.

Nós também temos dados, ainda não publicados, do uso da “fosfo” em camundongos com sistema imune suprimido, e os resultados foram bons também. Então, é algo que precisa ser avaliado com mais calma.

Muita gente se pergunta por que, depois de tantos anos de pesquisa, ainda não foi possível organizar um teste clínico formal da molécula em pacientes humanos. Quais os motivos para essa dificuldade, na sua opinião?

Em primeiro lugar, organizar testes clínicos não é mesmo algo trivial.

Nenhum grupo de pesquisa vai conseguir fazer isso com sucesso sem formar uma rede grande de parcerias e sem ter muito cuidado com todas as etapas do processo, que é complicado e custoso.

Além disso, minha opinião pessoal é que os dados pré-clínicos [ou seja, dos testes in vitro e com animais] ainda não estão maduros o suficiente para ir adiante com os testes clínicos.

A gente tem alguma ideia sobre os níveis de toxicidade da “fosfo”, por exemplo, mas seria conveniente estudar isso com mais calma. Também é importante realizar estudos farmacocinéticos [ou seja, que acompanham como determinada droga é absorvida e, mais tarde, eliminada pelo organismo do doente].

Chierice também já argumentou que os relatos positivos dos pacientes que tomaram a droga informalmente são indício suficiente de que ela pode funcionar em humanos.

Não é possível afirmar isso só com os relatos, sem um acompanhamento clínico detalhado dos pacientes, por exemplo.

Como o sr. vê a decisão de distribuir a molécula mesmo sem dados mais sólidos?

Eu nunca concordei com essa prática e sempre deixei isso claro para os meus colegas. Por outro lado, não concordo de modo algum quando as pessoas retratam o professor Gilberto como um criminoso. É muito fácil julgar sem conhecer a pessoa.

Folha de São Paulo

Rocha Lima – O Laboratório de São Caetano.
Análises Clínicas, Vacinações e Ultrassonografia.

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